10ª Aula de Fotografia

Composição

Hoje, nós vimos os diversos elementos de composição. Obviamente, foi bastante material, mas, como parece ser praxe em várias coisas da vida, o assunto está longe de se esgotar. A questão mesmo não é a quantidade, e sim como e quando usar. Na apostila há uma frase que, ao mesmo tempo que me aliviou, me deixou preocupado: “(…) Dentro deste contexto, a composição visual se diferencia das demais por ser o único momento no qual compomos na mesma linguagem do artefato: a cena é vista, o acontecimento se desenrola durante o ato fotográfico. É, portanto, mais intuitiva, menos pragmática e cartesiana, ainda que exista uma ordem.” Bom, esse é um dos motivos de estar nesse barco: resgatar a intuição no meio desse meu mar cartesiano! Feito o “desabafo”, vamos aos elementos:

Sentido da Leitura

Depende da cultura. Nós, ocidentais, fazemos a leitura de um texto da esquerda para a direita e de cima para baixo. No caso de uma imagem, dependendo da mensagem que você quer passar, é interessante compor usando esse mesmo sentido. Usar o sentido inverso pode causar desconforto.

Enquadramento

O enquadramento pode ser:

  • Horizontal: quando queremos amplitude; bom para paisagens.
  • Vertical: proporciona profundidade; bom para retratos.
  • Holandês: levemente inclinado, passa a sensação de movimento.
  • Quadrado: se mostra estático, sem tensão; foi muito usado para retratos (Hasselblad).
  • Panorâmico: grande campo de visão.

Planos

Os planos são os diversos níveis de “cenários” que uma imagem pode ter. Eles podem ser usados para dar movimento e profundidade.

  • Grande Plano Geral: a ênfase está no ambiente; o sujeito está envolvido por ele, podendo passar o sentimento de solidão.
  • Plano Geral: há uma “conversa” entre o sujeito e o ambiente.
  • Plano Médio: o sujeito preenche o quadro, mostrando sua ação; o ambiente pouco aparece, apenas contextualizando.
  • Primeiro Plano: a atenção está no sujeito e o ambiente é menos importante (uso do desfoque, por exemplo) ou não aparece; pode-se estar querendo captar a emoção de uma fisionomia.
  • Plano Detalhe: quando queremos mostrar um detalhe do sujeito, chegando até mesmo formar imagens abstratas.

Retângulo Áureo e Regra dos Terços

O Retângulo Áureo é aquele que é feito usando-se a Proporção Áurea. Ao traçar retas horizontais e verticais em seus Pontos Áureos (ou da Seção Áurea), encontra-se quatro intersecções que são pontos de interesse, ou seja, quando posicionamos o assunto nesses pontos, eles ganham ênfase.

A Regra dos Terços é uma simplificação do uso do Retângulo Áureo: nesse caso, traçamos retas horizontais e verticais a partir dos terços dos lados do retângulo.

Regra dos Terços

Essas divisões também servem para posicionar o horizonte:

  • No terço superior, a ênfase fica na parte de baixo.
  • No terço inferior, a ênfase fica com o céu.

Claro, podemos quebrar essa regra e colocar o horizonte exatamente no meio da foto, tornando-a monótona.

Posição do Assunto

Além da Regra dos Terços, também é possível posicionar o assunto:

  • Centralizado: criando estabilidade; quando queremos equilíbrio nas extremidades.
  • Lateralmente: gerando instabilidade.

Pontos de Vista

O fotógrafo pode, ao se deslocar pelo ambiente, escolher posicionar sua câmera com a visão:

  • De cima para baixo: colocando a linha do horizonte acima do sujeito, expressa-se fechamento, opressão ou inferioridade do assunto.
  • De baixo para cima: criando a sensação de liberdade, poder ou superioridade do assunto.
  • Ao nível do horizonte ou dos olhos: nesse caso, a mensagem é de intimidade, tranquilidade ou igualdade do assunto.

Perspectiva

É a sensação de profundidade causada pela diminuição do tamanho dos elementos à distância. O uso de uma objetiva adequada ajuda na criação dessa sensação. Outro elemento de apoio seriam linhas convergentes. David Claerbout fez um ensaio chamado “The Algiers’ Section of a Happy Moment” onde ele usa alguns dos elementos de composição vistos até aqui.

Linhas

Os diversos elementos de uma foto podem formam linhas de diversos tipos:

  • Horizontais: são linhas monótonas, calmas, paradas; podem trazer a sensação de passividade e divisão. Andreas Gursky produziu uma foto somente com esse tipo de linha (a foto mais cara da história da fotografia).
  • Verticais: elas podem passar a mensagem de força, poder, expansão, vigor, firmeza, vitalidade.
  • Diagonais: trazem a idéia de movimento; se forem ascendentes, passam positividade; caso sejam descendentes, passam negatividade.
  • Curvas: também trazem a idéia de movimento, mas com mais suavidade.
  • Ziguezague: erráticas, passam ansiedade como mensagem.

Alguns fotógrafos comentados pela professora, além do Andreas Gursky: Cássio Vasconcelos e Cristiano Mascaro.

Luz

Basicamente, temos dois tipos de luz para trabalhar:

  1. Difusa: ela é suave, quase sem sombras; tem meia tonalidade, sem volume.
  2. Dura: causa sombras bem definidas, revelando volumes.

Elas também estão relacionadas a alguns momentos do dia e/ou do tempo:

  • Amanhecer ou entardecer: também conhecidas como horas mágicas ou douradas. Causam sombras longas, sendo bom para fotografar paisagens, texturas e silhuetas. Ao amanhecer, demonstra um tom dourado; ao entardecer, cores ricas e quentes; logo após, um azul crepuscular. Nesse último caso, as luzes da cidade começam a acender, sendo um bom tema para trabalhar, caso que é bom o uso de um tripé.
  • Meio-dia: bastante contraste de luz dura e sombras; é possível trabalhar com altas velocidades.
  • Dias nublados, com névoa ou chuva: boa fonte de luz difusa; no caso de chuva, pode-se trabalhar com reflexos.

Outro ponto a ser levado em conta quando tratamos da luz é a sua direção:

  • Frontal: sem contraste e sombra, minimiza texturas.
  • Contra-luz: cria silhuetas; deve-se atentar para a possibilidade de flares.
  • Lateral: mostra as texturas e o volume do assunto; a sombra passa a fazer parte da composição. Há diversas formas de se trabalhar com ela, passando a idéia de sonho, devaneio, impacto, surpresa, suspense ou drama. O assunto pode ser enfatizado (iluminado) ou escondido (na sombra).

Reflexos

Podem vir de diversas fontes:

  • Espelhos.
  • Água, como rios, lagos e poças.
  • Vidro: causam reflexos confusos, não muito nítidos.

Um fotógrafo que brinca muito com reflexos é o Brassaï.

Texturas

As texturas trazem a sensação de poder tocar o objeto pela foto, revelando sua substância e densidade. Mas, elas também podem simbolizar:

  • Aspereza ou suavidade.
  • Realidade (quando há a presença de textura) ou sua distorção.
  • Tempo (velho ou novo).

Fotógrafo comentado: João Castilho.

Foco / Profundidade de Campo

Quando há pouco profundidade de campo, o foco tem papel na seleção do assunto principal e/ou apelo emocional por causar uma atmosfera difusa. Em contrapartida, quando há  bastante profundidade de campo, a foto transmite maior realismo da cena. Por esse motivo, essa situação é bem usada em fotojornalismo.

Formas

Diz respeito aos contornos dos elementos da foto, mostrando volume e solidez. Também é possível mostrar como esses elementos ocupam o espaço ao se fazer uso de: perspectiva, distância entre objetos, gradação de tons e silhuetas.

Padrões

Os padrões são o uso de repetição de elementos, o que causa a sensação de ritmo e organização, atraindo o olhar e encantando-o.

Figura Humana

Ao se fazer o enquadramento, pode haver a intenção ou necessidade de se cortar alguma figura humana que esteja aparecendo na cena. Deve-se ter em mente que:

  • Cortes laterais causam movimento e instabilidade.
  • Cortes extremos causam impacto.

De qualquer maneira, existe uma regra que “deve” ser seguida: não se corta nas articulações.

Sujeito e Fundo

É interessante, em uma foto, que haja distinção entre sujeito e fundo, de forma a evidenciar o tema, que nem sempre é a figura humana!

Lentes

O uso de cada tipo de lente pode afetar a composição das seguintes formas:

  • Grande-angular: muitos planos, com distorção do primeiro plano; os elementos ao fundo ficam pequenos.
  • Normal: bom para perspectiva, havendo uma boa distribuição entre os diversos planos.
  • Tele: um só plano, pois achata a imagem em um só plano com desfoque nos demais.

Escala

Em uma fotografia é fácil haver a perda da noção de tamanho dos elementos que aparecem. Dependendo do que se deseja, é interessante haver algo para comparar, algo que sirva como referência. Em fotografia de perícia isso é essencial (o perito pode colocar uma régua ao lado do objeto sendo fotografado).

A escala, uma vez referenciada, também pode ser usada para passar determinadas sensações:

  • Se o objeto é miniaturizado, pode haver a percepção de um espaço pessoal, intimidade, segredo e sensualidade.
  • De forma oposta, se o objeto torna-se gigante, passa-se a mensagem de autoridade e impessoalidade (pode ser usado para indicar estado ou coletividade).

Preto e Branco (P&B)

A ausência de cor enfatiza o conteúdo da mensagem (a cor pode ser uma distração).

Também é muito usado em Fine Art, pois a presença da cor nos remete à realidade, enquanto que sua ausência, fornece uma interpretação artística e pessoal.

De qualquer maneira, quando se trabalha em P&B, como as cores pouco importam, as variações de tons são bem importantes, ou seja, deve-se dar atenção ao contraste que pode ser: alto (muito mais preto e branco do que cinza, enfatizando textura e forma), normal (equilíbrio entre preto, branco e cinza) ou baixo (predominância de cinzas).

Cor

A cor é uma percepção visual que fornece uma série de possibilidades na composição:

  • Propriedade física: a luz, enquanto forma de onda eletromagnética, pode afastar ou aproximar o olhar, dependendo de sua frequência (cor). Ainda lembro de uma palestra sobre mensagens subliminares que assisti há muuuito tempo atrás, onde o mestre Calazans disse que o vermelho é percebido antes que o azul pelos nossos olhos.
  • Emoções: as cores são carregadas de significados; não podemos nos esquecer que eles dependem da cultura que estivermos referenciando. Walter Firmo leciona um curso chamado Universo da Cor.
  • Combinações: harmoniosas ou não, pela teoria das cores, temos que: cores complementares causam contraste, as análogas são harmoniosas, as monocromáticas causam fadiga visual, as frias retrocedem e as quentes saltam.
  • Contraste: pode ser de temperatura (cores quentes e frias), luminosidade (claro e escuro), complementares e/ou de tonalidades.

E esses foram os elementos que vimos…

Muita coisa para estudar e entender, não? A melhor forma? Praticar! Toma exercício para casa:

  • Escolher um fotógrafo com o qual você se identifique com o trabalho; por quê? reunir várias fotos dele para apresentar; trazer um foto de sua autoria (impressa 15×20) que tenha elementos parecidos, mas com sua própria linguagem.
  • Fazer uma foto (impressa 15×20) com a seguinte interpretação: “Tinha uma foto no meio do caminho.”
  • Preparar um ensaio pessoal de aproximadamente 15 fotos (impressa 10×15), com o objetivo de se fazer sua edição.

Em tempo, durante a aula, também foram feitos e/ou comentados:

Exercícios

  • Fotografar sem câmera: planejar um ensaio (cinco fotos), procurando um ambiente que proporcione uma “conversa” entre as fotos; após o planejamento, realizar a atividade com câmera.

Outros Fotógrafos

 

Autor: Ramon Chiara

Sou Bacharel em Ciências da Computação pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) e Mestre em Ciências da Computação e Matemática Computacional pela mesma instituição. Já atuei como Desenvolvedor, Líder de Equipe e Sócio em empresas do Pólo Tecnológico de São Carlos e em São Paulo. Em 2002, fui co-autor do livro "Aprendendo Java 2". Atualmente, sou Analista de Sistemas no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, desenvolvendo sistemas Web em Java e, ultimamente, atuando na área de Segurança da Informação; e, Professor Universitário no Centro Universitário Senac, lecionando disciplinas ligadas à programação. Tenho, na Fotografia e no Aikido, um pouco de intuição nesse meu mar cartesiano. Mais recentemente, me formei em Professional & Self Coaching pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC) e esse mar, agora, virou um oceano de possibilidades a serem desvendadas!

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